terça-feira, 12 de junho de 2007

Romantismo

Então. Tô em casa gripado tomando chazinho e consolando pelo MSN uma amiga que deu um pé na bunda do namorado justo hoje. E ouvindo o disco do Caetano, tentando decidir ainda se gosto ou não.


Estou com preguiça de dar opiniões. De analisar os fatos. De escrever sobre as coisas. Quero dar opiniões simplistas, só para meus dois leitores semanais não me chamarem de alienado. Por exemplo, Renan Calheiros é um mala. Kubica é um cara de sorte. Será que quem não tem TV a Cabo tem que torcer sempre pelo (ou contra o) Flamengo? Esse Chávez... Não sei não...

Aliás, a criaca entre Chávez e o Congresso Nacional não me interessou em nada, mas resultou em duas gafes linguísticas sensacionais do pessoal da CBN. Primeiro, o repórter CBN noticiou que Chávez chamou o Congresso brasileiro de "papagaio de pirata" (sic) dos Estados Unidos. Depois o idiota do Adalberto Pioto (sempre quis escrever alguma coisa falando mal do idiota do Adalberto Pioto; contem, por exemplo, quantas vezes ele fala "exatamente" em menos de um minuto), então, dizia eu que o idiota do Adalberto Pioto afirmou que Chávez teria dito que o Congresso brasileiro apenas retificava o que o americano dizia.
Ôu, pra ser repórter não precisa estudar mais não?

Então é isso, falei.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Novidade

Após séculos de inatividade literária, dois poeminhas novos aqui. Ok, não são novos, eu escrevi já faz um tempinho. Mas estreiam lá.

Andei também reescutando, com mais cuidado e distanciamento emocional, o disco novo do Caetano, Cê. E concluí que é mesmo muito ruim.
Mentira, tem umas três ou quatro coisas legais. A faixa "Homem", por exemplo, é um barato.
E vicia.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

JP Coutinho

Ok, ok. Vocês, meus caros leitores, têm toda a razão. Um mês sem atualizar o blogue e, agora, me vem postar texto alheio?
Francamente, hein, Luis Tavares!

Está certo. Reclamação registrada. Agora vai ler o texto do portuga, vai.

Virgens ofendidas

A virgindade era um fardo. Leitor que é leitor sabe do que falo. Basta lembrar os 13, ou 14, ou 15 anos, quando as conversas da escola rondavam esses assuntos. Virgens, nós? A imaginação tomava o lugar da experiência e começava o desfile de conquistas para espantar os colegas tão inexperientes como nós. Comiam-se bairros inteiros de amigas, e as mães das amigas, e uma ou outra empregada que entrava no quarto sem bater à porta primeiro. Os outros olhavam-nos com o espanto próprio dos inocentes e, para não ruborizarem em excesso, partilhavam igualmente as mentiras da idade. Virgens, todos. Garanhões, mais ainda. E quando o dia sacramental chegava, o ato era um detalhe. O prazer também. O alívio, total: como se tivessem libertado Sísifo da sua pedra incansável. Vai, Sísifo, esquece o fardo, esquece a pedra.

Por isso é estranho acompanhar as notícias que chegam de Inglaterra. Lydia Playfoot, 16, vai processar a escola. Motivo? A escola não permite que Miss Playfoot (curioso nome) ostente em público a sua virgindade e o comprometimento de chegar intacta ao casamento. Lydia usa um pequeno anel, inventado em 1995 por um evangélico do Arizona. A escola não gosta do anel por razões de segurança e higiene. E porque o anel "viola" (peço desculpa pelo verbo) a política escolar sobre joalharia.

Confesso: as razões de segurança e higiene, eu entendo. Vi umas fotos de Lydia nos jornais e saber que esta jovem de 16 anos gosta de mostrar a sua condição virginal ao mundo é como largar uma galinha na Etiópia. Um convite ao motim e uma barreira evidente à aprendizagem serena e responsável.

Mas interessantes são as leis da escola sobre jóias. Segundo parece, o estabelecimento permite que os alunos muçulmanos ou sikhs possam usar lenços, calças e outros adereços religiosos. O contrário seria uma intromissão intolerável na liberdade de culto e expressão. Mas isso não impede a mesma escola de proibir cruzes ou crucifixos, e qualquer manifestação exterior de religiosidade cristã, ou vagamente cristã. Como o anel.

O caso não ilustra apenas a imbecilidade do sítio. Mostra como o pensamento multiculturalista, que sustenta grande parte das "políticas sociais" na Europa, é, na verdade, um exemplo de intolerância que nega os seus próprios fundamentos. O multiculturalismo pressupõe uma visão neutral sobre culturas distintas, concedendo a cada uma delas a sua dignidade intrínseca. Mas essa suspensão de julgamento termina à porta do Ocidente. Termina, no fundo, à porta da tradição judaico-cristã. Todas as culturas merecem respeito, com a exceção de uma única. Que, por acaso, é a cultura da maioria.

E a virgindade de Lydia? É talvez um pouco risível que uma adolescente de 16 anos prefira anunciar ao mundo o que deve ser um assunto pessoal e privado. Mas a atitude é tão risível e, no limite, tão condenável como as histórias adolescentes e passadas, em que o anel era outro: um anel invisível de conquistas imaginárias para aliviar o fardo real da abstinência.

E se a estupidez é crime, não há adolescente que escape.

JP Coutinho, na Folha.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Plágio

A noção de plágio é recente na nossa cultura. Até poucos séculos atrás, o conceito de imitação prevalecia sobre o de plágio, e era revestido de um caráter educativo ou didático ou laudatório. Imitar o estilo de Homero, ou de Camões, ou de Góngora era considerado requisito importante para um autor ser apreciado.
Hoje prevalece uma noção mais ou menos confusa de originalidade, e tudo o que não é original acaba taxado de plágio. De acordo com JPCoutinho, há diferença entre roubo e plágio (leia, vai, é sensacional). Na blogosfera, o plágio campeia, seja no estilo, seja em textos inteiros. Este aqui, por exemplo, véve reclamando que o outro plagia tudo o que posta. Já corrigi milhares de dissertações e monografias acadêmicas que o Google já conhecia por inteiro. O plágio é uma instituição internética. Como os spams ou os peixinhos sorridentes e árvores de natal das páginas de recados do orkut. Como os contos do Veríssimo que circulam por aí sem jamais terem sido escritos por ele.

Mas, apesar disso, a gente sempre acha que não vai acontecer com a gente. Até que acontece.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Aniversário

Este blogue fez aniversário. Dia 3 de abril do ano passado, eu começava esta bagunça aqui. Estou ainda longe de, como o Almirante, chegar aos mil posts. Mas em um ano, considerando-se a quantidade de outras coisas que eu fiz e o tempão que eu fiquei coçando, até que tem bastante coisa. Vou listar aqui, em forma de retrospectiva, os textos que eu acho mais interessantes.
Quem passar por aqui durante a festa pode também opinar sobre qual post gosta mais.
Então segue uma seleção deles. Os critérios são totalmente pessoais, como não poderia deixar de ser, mas acho que vale a pena ler:

a) Depressivamente falando (sobre música);

b) Sushi (sobre o filme O jardineiro fiel e outras coisas);

c) Recuperação (um poema meu de que gosto muito);

d) A Lagoa Rodrigo de Freitas (em homenagem aos meus saudosos alunos);

e) A ilha (sobre o filme);

d) Cantoras (sobre, tcharã: cantoras);

e) Censura no blogue (sobre política, tentando não usar clichês);

f) Subemprego (sobre subempregos);

g) Confesso que não li (mas olha lá, hein? de lá pra cá eu já li alguns da lista; não vou dizer quantos nem quais, mas a situação está melhor que em junho de 2006);

h) Falando sério agora (sobre o ensino particular no DF);

i) Música (sobre música, uai);

j) Segundo turno (sobre um monte de coisas; post, aliás, que me rendeu milhares de visitas googlísticas a partir do eterno questionamento: como lidar com a sogra?);

k) Uma metáfora (sobre lixo na rua, ou sobre política);

l) De cama e Propaganda (do mês que passei doentinho na cama, vendo televisão 24 horas por dia);

m) Luta de classes (sobre o então recentemente iniciado "caos aéreo" — não tem umas aspas maiores neste teclado não?);

n) Quase desistindo (todo blogue passa por crises existenciais, não passa? Então, mas olha só o resultado da enquete: um massacre!);

o) Christmas resistance (texto bastante pessoal sobre o natal);

p) Carnaval (favor não levar a sério nada do que está escrito lá, ok?);

q) Ingênuo, eu? (sobre Saramago e Paul Auster);

r) Sábado (sobre o livro de McEwan);

s) Nova metodologia (se eles podem, eu também posso).


Uau, quase 20 posts. Acho que me empolguei. Ah, mas relê aí ao menos uns três ou quatro, vai.
Ou, se não, entra lá no A Letra Mata, que vamos começar a discutir algumas coisas importantes sobre as diferenças entre o português falado no Brasil e o português europeu.

Abraços e beijos!

sexta-feira, 30 de março de 2007

"Chacrinha?!"

"De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora.

E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante — falta-lhe imaginação ou ele é obcecado.

E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi. Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha?

Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu quereria um povo mais exigente."

Clarice Lispector, em crônica publicada em 1967 pelo Jornal do Brasil,
extraído de A descoberta do mundo, ed. Rocco.

Você ainda não tinha visto nada, Clarice. Ainda não tinha visto nada...


quarta-feira, 28 de março de 2007

Nova Metodologia

Andei refazendo uns cálculos por aí e revisei minha idade 15% para baixo, o que me dá mais alguns anos de vida pela frente; e meu tempo de contribuição previdenciária, na verdade, era 20% maior que as estatísticas anteriores, o que me aproxima um pouco mais de poder me aposentar. Com a nova metodologia, verifiquei também que o meu saldo bancário e minha poupança (ops!) aumentaram em, no mínimo, 70%. Vou ligar e comunicá-lo ao meu gerente amanhã mesmo, para que ele faça as correções. Outro indicador importante que foi melhorado com a nova forma de cálculo do IPGE (Instituto Pessoal de Geografia e Enganações) é que meu aluguel deve baixar, já que se vão levar em conta agora as lâmpadas queimadas e o barulho do vizinho de cima, que não tinham sido considerados para o cálculo original.
Revisei para cima também minha nota na prova do último concurso público que fiz e — surpresa! — passei!!! O Cespe receberá minha notificação nos próximos dias. Minha conta do cartão de crédito foi revisada para baixo, e o banco me deve alguma coisa, assim como o leão do imposto de renda.
De acordo com a nova metodologia, a quilometragem do meu carro foi reduzida em 20%, o que gerou valorização do meu patrimônio. Os próximos números a serem revisados de acordo com a nova metodologia de cálculo do PIT (Produto Interno Tosco) são as visitas registradas pelo Sitemeter a este blogue, que estão evidentemente subestimadas, porque não levam em conta as visitas informais, que elevam em cerca de 10% o número de acessos por dia; e, na trilha do Romário, o meu número de gols marcados em peladas oficiais, que, por baixo, já contam mais de cinco mil. Morra de inveja, baixinho. Me segura que eu quero ver!

...

Como diz lá em Minagerais, eu güênto?!

segunda-feira, 19 de março de 2007

Sábado

Terminei ontem de ler o último romance (acho que é o último) de Ian McEwan, Sábado. Como já tinha gostado muito do Reparação, li o segundo com a melhor das expectativas. E, a bem da verdade, ainda assim consegui me surpreender com o quanto o livro é bom. McEwan constrói um enredo de apenas um dia, lembrando nisso o Ulisses de Joyce. A história é protagonizada por um neurocirurgião e, apesar de a narrativa ser em terceira pessoa, ela se desenvolve do ponto de vista dele, um fluxo de pensamentos contínuo, envolvente, interminável, cada ideia que passou pela cabeça de Henry Perowne naquele dia é contada nos mínimos detalhes. E, sem de modo algum deixar o livro chato, o domínio que McEwan tem da escrita é tamanho, que é impossível não se sentir na pele do personagem.

Gosto das descrições perfeitas que ele faz. Mesmo das cirurgias cerebrais contadas nos mínimos detalhes. O filho de Henry é guitarrista, toca blues, e as melodias e improvisos são descritos de maneira tão bela que quase é possível ouvi-lo tocar. O cuidado com que são amarrados os pensamentos de Henry suscitam reflexões interessantes acerca de como tomam forma nossas opiniões, nossos pontos de vista sobre todas as coisas. E o que não falta no texto são opiniões fortes, pois o sábado narrado está às vésperas da invasão americana ao Iraque. Não que o livro caia na besteira de querer convencer o leitor da razão de seja lá quem for. Pelo contrário, mostra-se a fraqueza, a imperfeição da opinião, qualquer que seja ela. O próprio personagem assume que só tem determinada opinião sobre a guerra porque um dia conversou com alguém que lhe disse certas coisas. Do contrário, poderia estar do outro lado da discussão. Enfim, parece que, de fato, onde abundam as certezas, falta inteligência. Não que McEwan diga isso. Ele passa longe de qualquer tentação de afirmar clichês.

A outra filha de Henry é poetisa (o tradutor usou a palavra "poeta" em todas as ocorrências e, aliás, a tradução é a única coisa que perde, neste livro, em relação ao outro, que foi primorosamente traduzido; o que não significa que a tradução deste seja ruim). O sogro também é poeta. Portanto, a reflexão acerca da poesia — e da literatura como um todo — permeia toda a narrativa. Uma delas, aliás belíssima, está reproduzida aí num post anterior, vê lá e diz se eu não tenho razão de recomendar o livro. Aliás, a poesia ganha um papel tão importante no fim da história que, se eu disser qualquer outra coisa, estrago a surpresa de quem o for ler.

Então aproveita e vai ler, vai. Se você passa mal quando pensa em sangue e cérebros cortados, recomendo ler deitado, como eu fiz. Bom fim de semana.

sexta-feira, 16 de março de 2007

M. A.

Tem um continho novo ali no De minha autoria:. Mas acho que ninguém vai gostar.

E o meu irmão, fotógrafo, está passeando por Londres e batendo umas fotos belíssimas. Quem quiser ver, entra aqui, ó.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Só pra ficar claro

Que não restem dúvidas: Rodrigo de Lemos não sairá da minha lista de bons blogues. Entra lá e lê tudo, vai.

Alilás, aproveita e lê os posts recentes do Fudílson, ou uncle Filthy. E os antigos também.

Estou terminando de ler "Sábado", de Ian McEwan. Quando terminar, comento. Por ora, fiquem com um aperitivo, uma reflexão valiosa sobre a poesia, por um personagem materialista e pragmático que só começou a ler poesia depois que a filha se tornou poetisa:

"Mas isso lhe custou um esforço de um tipo a que não estava habituado. Mesmo um primeiro verso pode provocar um enrijecimento por trás dos olhos. Romances e filmes, por serem agitadamente modernos, impelem a gente para a frente ou para trás no tempo, ao longo dos dias, dos anos ou até das gerações. Mas, para apresentar suas observações e seus juízos, a poesia se equilibra na ponta de alfinete de um instante. Retardar o ritmo, parar completamente, para ler e compreender um poema é o mesmo que tentar adquirir uma habilidade arcaica, como erguer uma muralha de pedras ou hipnotizar trutas para pescá-las."

Belo, belo, belo.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Ingênuo, eu?

Continuando a falar de Saramago, uma das críticas que mais ouço a ele é uma alegada ingenuidade ideológica, um comunismo superficial, um esquerdismo de meia pataca. Não discordo frontalmente dessas críticas. Há, de fato, alguns comentários que beiram a infantilidade, ao menos numa leitura literal. Mas ontem terminei de ler Desvarios no Brooklin, de Paul Auster. É um bom livro, bem-escrito, mas recheado de críticas contra Bush, contra a miséria, contra a guerra, contra o capitalismo, contra o consumismo, contra os valores da sociedade moderna. Tudo assim, "o capitalismo é uma merda" enquanto o personagem toma uma coca-cola. Saramago pode pregar uma ideologia ingênua, mas ele leva a sério o que diz. Quando ele diz que o mundo poderia ser diferente, ele de fato acredita que pode mudar (um pouco) as pessoas por meio de suas parábolas. Auster não. Desfila clichês, despretensiosamente, irresponsavelmente. Falou aqui, já esqueceu ali adiante.
Saramago se leva muito a sério. Ingenuamente, mas se leva a sério. Paul Auster dá uma voz moderninha e descolada aos seus personagens, mas não leva a sério nada do que eles são ou dizem. Entre ingenuidade autêntica e palraria irresponsável, ainda conservo melhor lição dos livros de Saramago do que do interessante porém efêmero livro de Auster.
Eu, como leitor, me levo muito a sério.

Aliás (comentário marginal, sem relação com o resto, mas irresistível), por isso mesmo, já abandonei a leitura da maior parte dos blogues que listei aqui do lado. Quando tiver saco, apago ao menos metade deles dessa lista.

domingo, 11 de março de 2007

As intermitências da morte

Terminei de ler recentemente As intermitências da morte, novo (ok, não tão novo assim, mas só agora eu fui ler), o mais recente, então, romance do Saramago. Eu sou suspeitíssimo para comentar, porque gosto muito de tudo o que o velho portuga escreve. Os ensaios, os esporádicos poemas, os contos e, principalmente, os romances, belíssimas obras de acabamento linguístico impressionante e de grande criatividade. Gosto das histórias malucas que ele inventa, das situações tão improváveis que só mesmo na pena irônica e alegórica de Saramago é que podem ganhar algum sentido.

Mas confesso que, depois de ter lido Memorial do convento, não consigo mais achar os demais livros dele tão estupendos. Acho que o Memorial é uma obra tão perfeitamente escrita, tão tão tão bela, tão humana (adjetivozinho miserável que não diz nada, não é mesmo?), de uma elaboração formal tão rica e diferente, que obnubilou (carái!) o brilho de tudo o que fui ler depois. Parece um pouco como se a fórmula tivesse chegado ao seu ponto máximo no Memorial. Deixe-me esclarecer que não li os romances dele na ordem em que foram escritos, então mesmo romances anteriores a esse já não me parecem a mesma coisa após tê-lo lido.

Mas voltemos ao da Morte. Aliás, antes que eu seja fulminado, morte. É um belo livro, com mais uma situação bastante inusitada e criativa. Mas o que gosto principalmente em Saramago é o carinho com que ele constrói seus personagens, os quais o leitor acompanha desde as primeiras páginas até o final da história e de quem vai gostando cada vez mais. No último romance, contudo, o autor opta por narrar boa parte da história sem focalizar nenhum personagem, ou melhor, focalizando esporadicamente vários deles. Recurso, aliás, repetido do livro anterior, Ensaio sobre a lucidez. Particularmente, esse anonimato narrativo, que dá aos fatos importância maior que à construção mesma dos protagonistas (aliás, não os há; ou são, no mínimo, intermitentes), esse recurso, dizia, me parece neutralizar uma das qualidades maiores (a maior, a meu ver) dos textos dele, que é justamente a construção dos personagens.

Outro recurso que, apesar de ser marca registrada de Saramago, já me cansou um pouco é a metalinguagem, a constante análise que ele vai fazendo das palavras usadas na história. Interrompe-se várias vezes a história para se analisar por que foi utilizada tal ou tal palavra e não outra. É uma estratégia formal interessante, muitas vezes divertida, mas lá pelo décimo livro que você lê dele fica meio boba.

De todo modo, o livro é bom, gosto de seu estilo, o desfecho é belo (embora não tão surpreendente quanto costumam ser os desfechos de Saramago), o texto não perde ritmo, a alegoria proposta conduz a reflexões sobre assunto de extrema relevância. Há traços daquele anticlericalismo ingênuo que mancha vários dos livros dele, mas, no fim das contas, gostei da leitura e acho que o velho portuga continua com a corda toda. Esperemos apenas que o próximo livro deixe um pouco de lado as narrativas desprotagonizadas e nos apresente ao menos um ou dois daqueles personagens que trago impregnados na minha própria personalidade, como o Sr. José, como Cipriano Algor, Baltasar e Blimunda, ou o próprio Cristo humanizado do Evangelho. São eles o que há de maior na obra desse que é, ainda e certamente, meu escritor predileto.

ATUALIZAÇÃO: O mais recente livro de Saramago chama-se Pequenas memórias, mas não se trata de um romance. E está na minha lista de próximas leituras...

Os elementos de compreensão

"Interessando definir, na obra, os elementos humanos formalmente elaborados, não importam a veracidade e a sinceridade, no sentido comum, ao contrário do que pensa o leitor desprevenido, que se desilude muitas vezes ao descobrir que um escritor avarento celebrou a caridade, que certo poema exaltadamente erótico provém dum homem casto, que determinado poeta, delicado e suave, espancava a mãe. Como disse Proust, o problema ético se coloca melhor nas naturezas depravadas, que avaliam no drama da sua consciência a terrível realidade do bem e do mal." *

Tinha me esquecido do tanto que gosto de ler Antonio Candido.

* Formação da Literatura Brasileira, Introdução.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Carnaval

Acho Carnaval uma das coisas mais chatas de nosso país. Não só pelo ridículo que são os desfiles de escolas de samba ou pelo insuportável que são as músicas que se ouvem nesses dias, mas também pela suspensão de todas as atividades que, ao menos em tese, teriam acabado de recomeçar após longa pausa. Não que eu seja contra o feriado, mas podia ser um tanto mais adiante. Você mal pagou as contas das férias, já vem um feriado enorme que para tudo de novo. Alguém podia propor um projeto de lei que transferisse o Carnaval (ou ao menos o feriado) para agosto. Agosto é um porre, não tem feriado nenhum, 31 dias de pura labuta. Ou no início de setembro, que aí já emendava a quarta de cinzas com o 7 de setembro. Ficava inclusive mais simbólico. D. Pedro I, que era um pulha, proclamou a independência após uma aventura amorosa fora da capital, em que se fartou de comer e beber. Consta que, inclusive, na volta, ele tinha acabado de parar às margens do Ipiranga, que é um riachinho de muito prestígio e pouca água, para aliviar-se do tremendo desarranjo que o havia acometido após a farra. De lá, após gloriosa cagada, nervosinho com a notícia recém-recebida de que o chamavam de volta a Portugal, num arroubo de rara ousadia, gritou qualquer coisa que, de acordo com os registros, tomou a forma de um solene "Independência ou morte!" Acho que o 7 de setembro vir depois da quarta de cinzas ficava muito bem.
Aliás, muito se fala que o Brasil só funciona depois do Carnaval. Trata-se de uma afirmação inexata. A dúvida não é se funciona antes dele (não, não funciona), mas, sim, se passa a funcionar depois.

Bom, este blogue, pelo menos, volta a funcionar.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Macho feio

JP Coutinho, em artigo recente na Folha:

"E o humor só existe, e praticamente só existe no masculino, porque é ferramenta evolutiva indispensável: um mecanismo de conquista e salvação que permite ao macho, sobretudo ao macho feio, um trampolim intelectual para conquistar sua donzela."

O resto aqui.

E por falar em macho feio, leia este post aqui sobre o Paulo Francis.

Enquanto isso eu vou tentando ressuscitar meus neurônios pra ver se consigo voltar a escrever por aqui.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Capitulação

Quando você entra no site da Secretaria de Cultura do DF, toca a música de ano novo da Globo. Sabia? É, no site da Secretaria de Cultura.

Bom, este blogue, bem como meus outros dois, entram de férias hoje. Voltamos lá pro dia 10 de janeiro. Vai lendo os arquivos, enquanto isso. Abraços e bom ano novo a todos.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Christmas resistance

Há um movimento contra o Natal. Em geral, ouve-se pessoas dizerem que não passa de uma data comercial, ou uma festa cheia de hipocrisia em que as pessoas se abraçam e vestem uma capa de bondade que, na verdade, não existe. Há ainda as que dizem ser uma festa sem sentido, simplesmente por não acreditarem na divindade de Jesus Cristo.

Eu, particularmente, odeio Papai Noel, não faço questão (embora goste) de ganhar milhares de presentes, nem me sinto mais solidário em dezembro. Mas adoro o Natal. Não apenas pelo motivo maior, que é o fato de celebrar com grande alegria o nascimento de Jesus. Creio que, mesmo que não fosse cristão, não resistiria a comemorar o nascimento de um homem que dedicou sua vida a ensinar as pessoas a amar, abrir mão de seu egoísmo, não falar mal dos outros e não usar de violência em hipótese alguma.
Ademais, o Natal é um pretexto irrecusável para encontrar pessoas a quem amamos, ou, no mínimo, que deveríamos aprender a amar. As famílias brigam, é verdade. Até a minha. As melhores de Londres também. Mas isso é natural, as pessoas podem aprender com isso e crescer.
É fato que a data é usada com grande apelo comercial. Não há, porém, maiores problemas com isso. É bom que o comércio lucre com o Natal. Aumenta o PIB. Emprega-se um monte de gente. Empresários e funcionários ficam felizes (clientes também, com as promoções). Todo o mundo sai ganhando no Natal. Tá bom, tá bom, nem sempre é simples assim. Na verdade, o comércio conseguiu distorcer completamente o sentido do Natal. A figura odiosa do Papai Noel tira o foco da pessoa central dessa data. A questão dos presentes às vezes gera ressentimentos entre familiares. E mais um monte de coisa, enfim.
Mas eu adoro o Natal. Principalmente o dia 25, em que não há mais aquela formalidade da noite de natal, já se abriram os presentes, quem tinha que acertar contas com um parente já o fez e está todo o mundo mais à vontade, de bermuda e chinelo, comendo peru-chester-pernil, já acabaram as passas (eu odeio passas) e quem tinha ficado estressado preparando a festa já está mais tranquilo também.
Eu fico igual a uma criança, no Natal. Que nem pinto no lixo. Este ano ainda ganhei um livro de contos do Cortázar, em espanhol, e outro de contos alemães (em português, ainda bem). Uma beleza, uma beleza. Se todo o mundo ganhasse livros no Natal, não ficavam perdendo tempo fazendo campanha contra o Natal.


OBS: Se você é metido a professor de português e estranhou o meu "ouve-se pessoas dizerem", lá no início, esclareço que parece errado mas está certo. Depois eu explico direito lá no A Letra mata, que agora estou com preguiça.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Millôr

(Coluna de Millôr Fernandes, numa edição recente da VEJA.)


L.I.V.R.O.

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em sequência correta. Com recurso do TPO Tecnologia do Papel Opaco – os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta "ERRO FATAL DE SENHA", nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.

Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.

E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

É bom ou ruim? *

Um livro é um grande livro não pela história que conta, mas por elementos que vão muito além do que uma leitura desatenta possa revelar. Não é porque se lê um livro num só fôlego, sem se conseguir largar, que ele é um grande livro. Na verdade, os livros que mais me marcaram foram aqueles que passei meses lendo, ainda que curtos. Não é porque o livro é fácil de ler, ou porque o leitor se identifica com o personagem, que ele é bom. Quando aprecio um livro, buscando responder à pergunta “É bom?”, costumo levar em conta as seguintes características:

Linguagem:

Este é, certamente, o elemento mais importante a ser observado num texto literário. A elaboração formal, a coerência entre a linguagem e o estilo (ressalte-se que linguagem e estilo não são a mesma coisa), a concisão necessária ou a construção intencionalmente perifrástica, prolixa; enfim, esse é o elemento básico da construção de um bom livro. Por isso muitos livros perdem completamente o interesse quando (mal) traduzidos. O contrário também é válido.

Referências:

Não que um bom livro tenha de se encher de citações. Ao contrário, elas costumam deixar o texto pedante. Mas é sempre um índice de criatividade formal a menção, tácita ou evidente, a outra obra ou autor. Para o meu gosto, quanto mais discreta for a referência, melhor; mas essa é uma idiossincrasia. O fato é que uma construção propositalmente ambígua, que estabeleça intertextualidade, ou o recurso à paráfrase e à paródia enriquecem o texto. É desnecessário dizer — mas o digo — que o efeito causado depende da sensibilidade do escritor e, evidentemente, da bagagem de leitura do leitor.

Ponto de vista:

Toda história é contada a partir de um ponto de vista. Mesmo que o narrador seja de terceira pessoa e onisciente. Ele adota um ponto de vista. Se isso não estiver claro, o texto é ruim. Simples assim. Esse ponto de vista pode ser o de um personagem do texto, ou de vários, mas pode ser algo mais, digamos, distanciado. Mas não impessoal. O narrador pode ter um ponto de vista irônico, lamurioso, heroico (como nas epopeias). E esse ponto de vista, é desnecessário dizer (mas digo, mas digo), precisa de coerência. Esse é o aspecto em que muitos livros se enfraquecem. Subitamente, o narrador solta um comentário, ou um adjetivo, enfim, que faz o leitor se perguntar: quem teria dito isso? Ponto negativo para o livro.

Verossimilhança:

Corresponder a história à realidade estrita não é exatamente uma obrigação do ficcionista. Mas é necessária uma coerência interna. A história deve ser crível dentro do próprio universo que ela cria. Excetuam-se, evidentemente, os possíveis jogos a que autores podem recorrer, criando situações notoriamente incoerentes. Contudo, mesmo aí, deve haver uma intenção, normalmente de comismo. Se o autor, a sério ou sem o perceber, cria situações ou personagens que não correspondem aos parâmetros da realidade ou às características ficcionais do próprio enredo, o livro perde em qualidade. Aqui, aliás, escorrega a maioria dos best-sellers da atualidade. Histórias mirabolantes, encontros inesperados e personagens traiçoeiros são ingredientes que, quando bem-empregados, rendem interesse à obra. Quando bem. E, portanto, raramente.

Há outros critérios, mais sutis, como a consideração do contexto histórico de produção do livro. Mas quero dedicar-me a rebater alguns que, definitivamente, não garantem valor a uma obra. Por exemplo, a tal originalidade. Ora, se se tomar essa palavra em sentido estrito, a última vez que se pôde falar em originalidade em Arte foi na, sei lá, Grécia Antiga? O fato é que não há muito o que escrever que não tenha sido escrito já. Nada, na verdade. Outra ideia boba é que um livro é bom se o enredo é intrigante. Disso já falamos no início. Qual é a história do livro? Esta é uma pergunta inútil. Temas banais fazem grandes obras. Depende de outros critérios. Outro elemento que pode servir de valoração é o engajamento. Ora, uma obra defender uma determinada pregação, explicitamente, pode ter efeito positivo no âmbito da sua repercussão, e até no significado histórico desse trabalho. Mas raramente um texto com a intenção primeira de transformar o mundo resulta num grande livro.

Para não ficarmos só na teoria, podemos enumerar alguns exemplos do que foi dito. Machado de Assis escreveu uma das obras capitais da literatura brasileira, aclamada mundialmente, a partir do tema da traição. Nada mais manjado, certo? Errado, porque o trunfo do nosso escritor não foi o tema, mas um conjunto de opções formais que fizeram de Dom Casmurro o que ele é. Primeiramente, a linguagem. A prosa machadiana flui, é agradável, encanta apenas pela própria beleza das imagens, das palavras, dos contrastes entre termos muito próximos, que geram efeitos estéticos que, numa leitura de fruição, muitas vezes nem decodificamos, mas são captados. Outro ingrediente marcante é o ponto de vista adotado. A história de Bentinho ganha interesse adicional porque é contada sob seu próprio ponto de vista, mas não o do mesmo Bentinho personagem, pois D. Casmurro já está velho quando narra a história. Essa escolha, evidentemente, afeta muito o enredo. O leitor é conduzido, na trama, por um narrador velho, desmemoriado e tendencioso. Quem fica perdendo tempo discutindo se Capitu o traiu ou não, na verdade, não percebeu o jogo proposto pelo escritor. Como vamos acreditar no que D. Casmurro nos diz, se o objetivo dele ao escrever a obra é justamente buscar, numa memória fraca e arrependida, motivos para justificar sua desconfiança e suas atitudes contra Capitu? Uma historinha de amor e ciúme: mas um grande livro.

Outro autor de que gosto muito é o português José Saramago. Muita gente o critica pelo conteúdo às vezes ingenuamente idealista de seus textos. Críticas bobas ao capitalismo etc. Mas, veja-se, Saramago não me parece preocupado em apregoar o socialismo em seus textos, e sim em escrever frases belíssimas e construir personagens extremamente interessantes. O que ele faz, aliás, como poucos escritores. No texto de Saramago, encontramos uma mistura frequente — e muito gostosa — da linguagem informal, dos ditados populares, das expressões familiares, com uma sintaxe complexa, rica e bem-amarrada. Ou uma mistura de personagens simples e cotidianos com emoções profundas e difíceis de compreender, porquanto extremamente humanas. Tome-se, como exemplo, o romance Memorial do convento, que muita gente não consegue ler até a décima página, outros acham o melhor livro do mundo. Eu estou mais perto do segundo grupo. É um grande livro, principalmente se analisado do ponto de vista da beleza da linguagem. Memorial do convento me parece um grande poema, uma ópera, uma epopeia. As frases, as imagens, os diálogos, toda a estruturação linguística do texto é de um grau de elaboração formidável. Por isso é um livro difícil de ler, posto que belo. Vencida a barreira do estranhamento da linguagem, lê-se ele com os olhos úmidos. Além do primor formal, Saramago nos apresenta personagens com densa caracterização psicológica, além de descrições espaciais que, ainda que longas — às vezes muito longas —, são tão ricas e nítidas, que transportam o leitor para o meio da Península Ibérica medieval.

Há autores que se destacam pela maneira como rompem drasticamente a estrutura padrão de um texto. Dependendo do grau de intencionalidade dessas rupturas, podemos ter um grande livro. Quando penso em um autor que, de modo magistral, tenha feito essa inovação formal, o primeiro nome que me lembra é o de Jorge Luis Borges. Criatividade temática e formal, aliada a um incomparável domínio da língua e seus recursos, eis os trunfos desse autor. Em Borges, na verdade, encontramos uma tal quantidade de recursos, que se torna impossível (ou desinteressante) falar dele sem ler um texto concreto. Mais adiante, se interessar, podemos ler e analisar um dos contos dele por aqui.

Dados os exemplos, fica a dica: a leitura de um livro não é mera distração; pressupõe análise, avaliação, critérios razoavelmente bem-definidos. Se não, continuaremos comprando como best-sellers uma quantidade enorme de livros que não passam de ficção.



(*) Texto originalmente publicado no A Letra mata.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Resultado!

Por esmagadora maioria de votos, o blogue continua. Mas iniciei, nesse tempinho sem blogar por aqui, um novo projeto. Trata-se de um blogue mais técnico ou, ao menos, mais aprofundado, sobre um assunto específico: a linguagem. Chama-se A Letra mata. Conheçam, conheçam.
Qualquer dia desses volto a escrever por aqui, atendendo aos inúmeros fãs que deixaram sua opinião na enquete.